A lição de anatomia do temível Dr. Louison [Crítica]

Terminei de ler “A lição de anatomia do temível Dr. Louison” com um sorriso estampado no rosto. Sabe quando você vê um truque de mágica bem executado e com um final surpreendente? Então, é esse tipo de sorriso.

A trama, que gira em torno dos assassinatos cometidos pelo Dr. Louison, é contada de forma não linear e por diversos pontos de vista, simulando uma compilação investigativa sobre o assassino que dá nome ao livro. Essa escolha estrutural garante à obra uma incrível originalidade – principalmente quando comparada com as demais obras nacionais lançadas recentemente – e mostra que o autor, Enéias Tavares, tem talento em manter uma curva dramática crescente mesmo com a trama indo e voltando na linha temporal.

Vemos também no livro uma lição sobre ritmo narrativo. Fazendo uma comparação com uma locomotiva – estamos falando de steampunk, não é mesmo? -, podemos dizer que o livro começa com um compasso mais lento, tomando um tempo para ambientar o leitor nesse Brasil alternativo onde vapor e eletricidade se combinam para gerar maravilhas e para o apresentar aos pontos principais a serem abordados posteriormente; as rodas do trem partem da inércia e aos poucos entram em movimento. Então começamos a nos aprofundar mais nesse mundo de tecnologia e misticismo e na cabeça de personagens complexos e cinzentos; aqui o trem já está com boa velocidade, fazendo com que seja impossível saltar para fora dele. E então chegamos as duas últimas partes do livro, onde a virada de páginas se torna involuntária; o trem está tão rápido que só podemos parar quando chegamos ao ponto final. O ritmo é tão alucinante que fica difícil até respirar – no melhor dos sentidos.

Outro ponto que agrega muitíssimo valor à obra é a utilização de personagens conhecidos da literatura brasileira, como Simão Bacamarte e Rita Baiana. Eles se encaixam tão bem na trama que parecem ter sido desenvolvidos especialmente para ela. Mais um mérito para o autor, que costura uma “colcha de retalhos” com personagens inéditos e aqueles já conhecidos sem perder o senso de unidade da narrativa.

E, claro, não podemos deixar de falar sobre a ambientação criada pelo escritor, que torna o Brasil do início do século passado em um lugar onde robôs e humanos convivem diariamente, onde dirigíveis tomam os céus e carruagens mecanizadas enchem as ruas, onde artefatos místicos e inovações tecnológicas se confundem. Tudo isso descrito com classe e sensualidade.

Assim como um ilusionista, Enéias Tavares cria uma trama intrincada que faz o leitor olhar para um lado, enquanto a verdadeira narrativa se desenrola do outro. Fazendo que, ao final da história, fiquemos com aquele sorriso no rosto de quem acaba de montar um quebra-cabeça e já quer partir para o próximo. Sem dúvida, “A lição de anatomia do temível Dr. Louison” é um dos livros mais originais e divertidos dessa nova leva de autores nacionais.

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